terça-feira, 13 de novembro de 2018


Diálogo Atemporal entre H.G. Wells e George Orwell

Sou um verdadeiro antagonista de H. G. Wells. Embora ambos sejamos idealistas, ele é um verdadeiro otimista, e eu, um pessimista.

Wells revolucionou a literatura e todas as diversas mídias que envolvem algum tipo de narrativa que vieram depois dele ( Tome “Guerra dos Mundos” por ex ). O verdadeiro pai da ficção científica. Em suas histórias, o avanço tecnológico está sempre intrinsicamente ligado a ética e a moral. O avanço tecnológico, segundo seu ideal, está separado de forma definitiva da maldade. Nesse ponto, ele era inocente, mas pudera, é mais facil compreender sua visão de mundo quando você percebe que isso tudo foi antes do desastroso século XX acontecer.
Poucos anos antes da decolagem do primeiro aeroplano, Wells já dizia : A invenção do avião será o começo da abolição das fronteras entre os estados-nação. E nesse ponto, ele não podia estar mais errado.

Outro gigante da literatura mundial, este mais realista, George Orwell, estabelece um dialogo com Wells na sua essay “Wells, Hitler and the world state”

We were once told that the aeroplane had “abolished frontiers” actually it is only since the aeroplane became a serious weapon that frontiers have become completely impassable.”

Conhecemos Orwell, mesmo assumindo que está cometendo “Fratricídio” que é o que significa fazer uma crítica a Wells, ele não perdoa em sua crítica. Ele afirma que foi apenas depois da transformação do avião numa arma séria que as fronteiras ficaram completamente impassaveis. Essa afirmação não tem como ser negada, mas também não podemos esquecer que isso foi escrito na década de 50, onde o avião tinha sido usado para quase nada além de jogar bombas e transportar mantimentos para a guerra. Também é facil compreender a opinião de Orwell dentro do seu papel histórico-social.

Como um escritor do século XXI, Sou filho de Orwell e neto de Wells. E por mais que meus ideias se aproximem mais do realismo de Orwell do que o idealismo otimista de Wells, de encontro com os problemas atuais relacionados ao boom tecnológico, não consigo evitar em me agarrar um pouco no otimismo de Wells.

Troquemos o avião pela internet. Embora não tenham muitas semelhanças técnicas, a opinião de que a internet ia aproximar as pessoas e fortalecer as democracias com base na transparência prevalecia dentro da academia nos anos 90. E como Wells, a academia não poderia estar mais errada. A desinformação, a banalização da verdade resultou na radicalização das democracias que não seria possível sem o instrumento de manipulação barata que se tornou a internet e começou um novo padrão de fragilização das democracias por todo o globo onde é impossível prever o que pode acontecer, e infelizmente, uma repetição dos desastres do século passado, dando a minha opinião de um estudioso da história, é bem possível.

E é aí que eu resgato Wells. Precisamos de algum otimismo. Já estamos muito fundo dentro desse buraco chamado tecnologia à ponto de eu acreditar que o nosso problema já não pode ser resolvido por nada além da própria tecnologia. Nosso entendimento sobre os avanços tecnológicos atuais e a previsão para incorporar de maneirar efetiva as tecnologias futuras é a única esperança que me resta para a humanidade.

Uma sociedade global que vive uma paz introduzida pela ameaça de destruição completa com as bombas atômicas, é inocente tentar simplesmente banir essa tecnologia, mas entender completamente as ferramentas que nós mesmos tiramos da caixa de pandora para não causarmos nosso próprio desastre é algo de uma urgencia tão grande que talvez nossa geração seja a ultima que tenha condição de tomar uma decisão.

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