O que pensara Robert
J. Oppenheimer no momento em que observou a imensa bola de fogo resultante do
teste Trinity pairando no céu sobre sua cabeça?
De acordo com Frank, seu irmão, o
que disse foi apenas [diretamente] : Funcionou.
Mas a maioria das pessoas [no imaginário popular] conhecem a história
por uma versão um tanto mais poética, uma em que Oppenheimer diz que ( ou pelo
menos pensa ) as seguintes, famosas, palavras.
"Me recordei da estrofe da escritura sagrada Hindu, Bhagavad-Gita; Vishnu, ao tentar persuadir o príncipe de que deveria cumprir o seu dever. E, para impressioná-lo, assume sua forma trancendental [ multi-armed form ] ¹ "Agora, Eu me torno a morte, a destruidora de mundos."
Suponho que todos
nós acabamos pensando isso. De certa forma.
Nessa versão, que mostra um Oppenheimer abatido, foi originalmente filmada
para o canal NBC "The decision to
drop the bomb", em 1965. Primeiro vi em "The day After
trinity"(1980), e graças ao YouTube, está disponivel para praticamente
qualquer um a qualquer hora. Existem outras versões da citação por ai como
"estilhaçador (shatter) de mundos", [Na versão de Rogério Duarte, O
grande arrasador] é uma variação comum - embora não tenha circulado como parte
do folclore de Los Alamos até o final dos anos 40, e principalmente, durante os
anos 50.
É uma declaração assombrosa e uma citação sugestiva.
O problema é que na maior parte das vezes que ela é citada, é evocado puramente
pela sua sugestividade sem nenhum entendimento maior sobre o que ele quis dizer
com isso. Isso que quero falar sobre
agora: O que Oppenheimer estava tentando dizer, presumindo que ele não estava
só tentando ser pretensioso? O que ele estava realmente insinuando no Gita?
Um
cartão postal de Diwali, 1998, celebrandoos primeiros testes nucleares da Índia. Source.
Primeiramente, é bom deixar claro que não sou um estudioso
da teologia Hindu. Felizmente, vários anos atrás, James A. Hijiya da
Universidade de Massachussetts Dartmouth compôs um artigo maravilhoso em
"The Gita f J. Robert Oppenheimer" com essa abordagem não apenas
cobre todo esse tema como também vai mais além que alguém dificilmente poderia
imaginar. Tudo que eu sei sobre a Gita
vem do artigo de Hijiya - portanto, leia se você quer uma discussão ainda maior
do que a que temos aqui. Eu sou
particularmente afeiçoado a sua abertura, em que a parafrase de Oppenheimer
sobre o Gita é "Uma das mais reproduzidas e menos interpretadas citações"
da era atômica
Oppenheimer não era Hinduísta. Aliás, não era muito bem qualquer outra definição. religiosamente - ele
nasceu em uma família Judia consideravelmente secular, acolheu a Cultura Ética
de Felix Adler [estudou em sua escola por uma década] e percebia a filosofia
mais como um potencializador de sua alma mais que qualquer credo em específico.
Ele apreciava as idéias da Gita, porém
fora de um contexto religioso maior. Hijiya pensa que, entretanto, que muito
pode ser observado da vida de Oppenheimer como pela lente da Gita como uma
filosofia de vida e um código moral, observação necessária em parte por
Oppenheimer raramente ter discutido suas motivações pessoais e sentimentos
próprios que ele teria sobre a construção da bomba. Hijiya argumenta que um homem que era capaz de
proclamar tantas declarações sobre o "pecado" e o "terror"
e a "Desumanidade" de Hiroshima e Nagasaki poderia também ser alguém
que promovera seu uso contra o Japão e que, aliás, nunca, jamais, disse que ele
se arrependera de ter construído a bomba ou apoiado o seu uso. Isso nos ajuda resolver uma das contradições
mais cruciais, em outras palavras, no ponto chave da história de J. Robert
Oppenheimer.
Não temos certeza de quando Oppenheimer foi exposto a Gita
pela primeira vez. Eu vi relatos, na historia oral, que sugeria que ele já
soltava versos da Gita até mesmo em quanto era apenas um jovem estudante de
graduação na europa. O que nós definitivamente sabemos é que ele só começara a
estudar sânscrito seriamente em 1933, quando começou a ter aulas com o renomado
acadêmico do sânscrito Arthur W. Ryder, quando este lecionava em Berkeley. Nas cartas, ele escrevia de forma
extravagante para seu irmão, e bem depois, tirou uma citação da Gita na
homenagem prestada em Los Alamos, em abril de 1945 com a morte do presidente
Roosevelt.
A estória narrada na
"Canção do Divino Mestre" é a de Arjuna, um príncipe humano que foi
convocado a lutar numa guerra entre principes, todos primos. Arjuna não quer
lutar - Não por faltar habilidade nem coragem, mas pelo fato de ser uma guerra
de sucessão, seus inimigos são seus primos, seus amigos, seus professores.
Arjuna não quer matar ele. Ele confessa
tudo ao condutor da carruagem de guerra, que se revela ser o deus Krishna em
forma humana. Gita se resume em Krishna contando a Arjuna o motivo de que este
tem de lutar, mesmo que ele não queria. O argumento de Krishna se apoia em três
bases: 1. Arjuna é um soldado, logo, esse é seu trabalho - seu dever -
guerrear; 2. É o trabalho de Krishna, não de Arjuna, determinar o destino do
ultimo. 3. Arjuna deve depositar em Krishna toda a sua fé se ele deseja
preservar sua alma.
Eventualmente,
Arjuana passa a ser convencido. Ele pergunta a Krishna se ele mostrará sua
forma (godlike, multi-armed) [universal; transcendental]. Atendendo Arjuna,
mostra uma visão impressionante.
Krishna revealing himself to Arjuna. Source.
A
thousand simultaneous suns - " se, de repente, mil sóils
Arising in the sky - "brilhassem juntos no céu,"
Might equal that great radiance, -"talvez o seu resplendor"
Might equal that great radiance, -"talvez o seu resplendor"
With that great glory vie. - "pudesse se assemelhar"
" a refulgência de deus"
"nessa forma universal"
Arjuna está impressionado, enfentiçado
Amazement
entered him; his hair - "então, confuso e perplexo,"
Rose up; he bowed his head;
- " com o cabelo
eriçado,"
He humbly lifted folded hands, - "Árjuna orou de mãos juntas"
And worshipped God. . . . - "e prostrou-se em reverência"
He humbly lifted folded hands, - "Árjuna orou de mãos juntas"
And worshipped God. . . . - "e prostrou-se em reverência"
- "ao supremo senhor deus"
Enfim, na
sua mais incrivel e terrivel forma. Krishna diz a Arjuna porque ele mostrou
essa forma.
Death
am I, and my present task - "eu sou
o tempo, o grande arrasador,"
Destruction. - "aqui vim para devorar a todos"
Destruction. - "aqui vim para devorar a todos"
Arjuna, comovido
e agora numa posição mais humilde enfim
concorda a se juntar a batalha.
As citações acima são da tradução de Ryder da
Gita. Você pode ver que a versão de Oppenheimer
não é muito diferente dela, mesmo que com algumas diferenças. Pessoalmente eu
acho a versão de Ryder da ultima parte mais impressionante - É mais poética,
mais poderosa. Hijiya explica que a tradução de Ryder é um pouco idiossincrática,
porém uma defensível. O que Ryder ( E Oppenheimer ) traduzem como
"Morte", outros traduziram como "Tempo", porém Hijiya conta
que Ryder não está sozinho em chamar a atenção de que, nesse contexto, a
expansão do tempo é claramente uma expansão destrutiva, mortal.
Se você prefere ver o famoso verso da
"morte" no original, se encontra no capítulo 11, verso 32, da Gita, e
é assim:
Embora eu ache a versão de Ryder mais
lancinante, a tradução maior estabelece de forma extremamente clara o que
Krishna tinha em mente. Todos vão perecer, eventualmente. Na guerra, muitos vão
perecer, quer você participe ou não. No
caso de "Oppenheimer e a bomba", isso pode ter sido particularmente verdadeiro. As cidades de Hiroshima e Nagasaki ( e vários outros na lista de
alvos [ link ] ) foram usadas como alvo não por serem necessariamente os alvos
mais importantes, porém pelo simples fato de que até o momento eles tinham sido
poupados do bombardeamento incendiário[link]. Eles estavam sendo ativamente
preservados como alvos da bomba atômica.
No caso em que a bomba não tivesse sido usada, ou até construída, eles
provavelmente teriam bombardeado de forma convencional. Mesmo que todos os
físicos tivessem se recusado a produzir armas nucleares, o número de mortos da
segunda guerra mundial, na visão do todo, mal seria afetado.
Agora, demos um passo
para trás e façamos a pergunta de, quem, afinal, Oppenheimer é nessa situação?
Oppenheimer não é o deus Krishna/Vishnu, não o temível deus,
não é o "Desolador de mundos - Oppenheimer é Arjuna, o príncipe humano!
Ele é o que na verdade não queria ter que matar os seus irmãos, seus iguais.
Porém, ele foi recrutado para um dever maior do que si mesmo - a Física,
Fissão, a bomba atômica, a segunda guerra mundial... - e é somente nesse
momento em que revela a sua verdadeira essência, o teste Trinity, é que ele
consegue finalmente ver o porque de, um homem que odeia a guerra, é levado a
lutar. É a bomba que esta aqui para a Destruição. Oppenheimer é meramente um
homem testemunhando o fato.
Hijiya argumenta
que o "senso de dever" inspirado pela Gita acompanha sua trajetória
de vida pessoal e também como funcionário do governo. Não sei se estou 100%
convencido desse fato. Se parece mais
como uma solução filosófica complicada para o problema relativamente simples de
uma vida de inconsistências. Mas ainda assim é uma ideia interessante. É talvez
util para pensar no motivo de Oppenheimer se envolver com tantos projetos em
que ele, em alguns momentos, se mostrava ambivalente. Mesmo que a ambivalência
não tentasse se esconder, ninguem tentara procurar motivos filosóficos/ nas
escrituras profundos na citação menos eloquente, porém igualmente ambivalente
no pós-Trinity. "Now we're all sons-of-bitches." [Acho que não
preciso traduzir isso]
A ultima
coisa que me incomoda é que não temos nenhum registro de Oppenheimer dizer isso
exceto o de 1965 no começo do post. Onde Oppenheimer está velho, com seu certificado
de segurança extirpado² e desfalecendo devido ao câncer na garganta. Naturalmente, fica fácil ver o video como
algo especialmente aterrorizante, por ser dito por um homem que está
desaparecendo. Entretanto, como seria o mesmo discurso se viesse de um
Oppenheimer mais jovial, o mesmo que vemos nas fotos no período imediato
pós-guerra? Será que o
dirscurso ainda seria tão impactante?
De uma
forma ou de outra, acredito que o verdadeiro contexto da alusão a Gita é bem
mais profundo, e muito mais interessante, que o entendimento popular da
questão. Não é um caso do "Pai" da bomba se auto declarando a
"morte, destruidora de mundos" num acesso de grandiosidade ou
orgulho. Mas sim, mostra um Oppenheimer perplexo com o que está sendo revelado
para ele, de encontro ao espetáculo da Morte sem nenhuma ilusão, se mostrando
na sua mais pura forma, no memento mori³ mais impressionante de todos, e consequentemente,
percebendo o quão pequeno e irrelevante ele é. Compelido por um algo cósmico e
aterrorizante, Oppenheimer se reconcilia com seu dever de príncipe da física, e
esse dever é a Guerra.
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